
..parece que se no corpo se cristalizar uma forma, centenas de vezes tida como crível, ela vai então esculpir o imaginário… mas se as formas do corpo sentir e viver não forem flexibilizadas, como poderá o corpo inventar outros sensíveis?
Introdução: do que são feitos os artistas?
Pensar a formação do bailarino contemporâneo não é uma tarefa que se esgota na apresentação de premissas e problemáticas – muitas vezes decorrentes dos necessários recortes que toda especialização de um conhecimento requer. Tratar da formação de um artista compreende sempre tratar de material humano, pois a arte se cria justamente do acesso a modos de comunicar que primem pelo sensível, pela expansão da capacidade de ser, pelos trânsitos subjetivos que tonificam a disposição para o encontro… Então isto significa que formar um artista não pode ser uma ação que desconsidere o processo global de amadurecimento de uma pessoa em relação à plenitude de seu ser. E não é mera convenção afirmar que essa plenitude demanda um alinhamento da relação entre corpo e mente – instâncias que são freqüentemente distanciadas na cultura moderna do Ocidente.
O corpo é o ponto de partida e também de chegada do profissional de artes cênicas já que é através da ação de seu corpo que a comunicação artística acontece. No caso específico dos bailarinos, essa implicação entre a comunicabilidade de uma obra e o desempenho expresso nos corpos de seus intérpretes apresenta um vínculo de intrinsecalidade tão evidente, que nem os questionamentos da pós-modernidade foram capazes de destituir (1). O fato é que o advento da pós-modernidade trouxe a atenção para a urgência e necessidade de engajar potencial intelectual à eloqüência virtuosa dos corpos. Mas isso nem sempre acontece de modo tranqüilo, já que muitas vezes a implicação do bailarino (na dança que realiza) passa pelo reavaliar de seus paradigmas de movimento, levando-o a perguntar-se, por exemplo, se faz sentido uma idéia de coreografia baseada em encadeamento de vocabulários? se o uso da voz e ou a articulação de idéias numa fala também não poderiam ser pensados como acionamentos coreográficos? se é pertinente tratar do movimento apenas em sua apreensão macroscópica (ou enquanto deslocação visível no espaço)? se a alteração de um estado de corpo, ou uma transformação emocional, também não seriam matérias de movimento possíveis de serem buriladas? se a dança não poderia englobar também as trocas afetivas que acontecem entre artista e público no contato a partir da presença cênica?…
Essa inquietação curiosa por rever e redescobrir propriedades daquilo que se entende por dançar levou a preparação do profissional desse ofício a uma abrangência de competências, mas sempre a partir do corpo. O que ficou latente foi o alargamento da noção de corpo, abrindo espaço para a apreensão de novas considerações a seu respeito. Desde roupas, objetos, recursos tecnológicos, efeitos sonoros, luz, vídeo. Até textos, conceitos, teorias… A compreensão de corpo, estimulada também pelos avanços na ciência e na filosofia, foi integrando conhecimentos de outras áreas do saber (2) . Estes trânsitos entre disciplinas complexificaram a atuação do bailarino. E essa transformação ocorreu de modo tão profundo que se tornou quase impossível imaginar tornar-se um artista da dança sem a abertura para o relacionamento com uma experiência integral de arte (3).
(1) Os chamados pós-modernos, no fervor das décadas de 60 e 70, verificaram que não se podia mais olhar para a dança como uma arte de exposição de belos corpos, aptos às acrobacias das mais incríveis. O corpo real, o corpo das pessoas que estavam nas ruas naqueles dias, era contaminado de pós-guerra, vivendo na tensão da guerra-fria… Por isso todo o mundo se engajava num discurso comprometido com tão concreta realidade. E a dança, como existente no mundo, afirmou sua contundência ao se posicionar chamando a atenção para a materialidade sensível do corpo, para o potencial instintivo articulado a uma atitude crítica. Nisto tornavam-se explicitas relações de sujeição e poder a que os corpos que dançam vinham sendo confrontados ao longo da história.
(2) Poderíamos citar a contribuição da fenomenologia, onde o corpo é percebido naquilo que se refere às experiências do corpo; ou da cibernética que expandiu ainda mais as apreensões do virtual como elemento do real… Mas antes disso, prefiro referir ao esgarçamento de fronteiras na própria arte. Tão mais evidentes no experimentalismo da 2ªmetade do século XX, quando a transdisciplinaridade aproximou como nunca as artes do palco e da presença (dança, teatro, circo, performance,…) de outros modos de criação artística (pintura, escultura, vídeo, escrita, desenho, cinema, arquitetura,…).
(3) Esse aprofundamento que passa pela busca de referências em outros campos artísticos, abre também relações com outras culturas, relacionando diferentes formas de pensar e estar no mundo… Com isso a formação do bailarino, por ter lugar no corpo, acaba tendo de encontrar um sentido holístico para apreensão do trânsito transdisciplinar. Isso orienta a integração de um sentido processual para a noção de corpo, integrando-o enquanto paisagem sempre em construção onde cada novo dado, cruzamento, ou descoberta… promove uma reorganização global.
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